segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FELIZ ANO VELHO



A porra do ano novo sempre me causou depressão. Por muito tempo tive a impressão de que tal disposição devia-se à minha fotofobia pela cor branca; nunca fui racista, mas sempre detestei usar branco: camisa branca, calça branca, tênis branco, então, nem se fala. Lembro-me que, quando adolescente, gostava de passar a virada todo de preto, para contrastar com aquela lengalenga toda; mas, depois que os últimos cabelos “desencumpridaram” e, por fim, começaram a descer, contentei-me em rejeitar aquele traje de médico-pai-de-santo-enfermeiro-dentista-açougueiro exigido para a ocasião.
Hoje, porém, também sei que meu estado de entropia nunca foi resultado somente da ausência das cores, mas, talvez, deva-se muito mais a uma certa reflexão que nunca nos abandona em épocas de transição, por mais que tentemos menosprezar a referida data. Afinal, os planos e disposições para o ano vindouro sempre carregam em si uma outra questão: o que fiz, até agora, da merda da minha vida?
Penso que, na maioria das vezes, a resposta para tal questão apresenta-se trágica. Mas, caso você, enfadonho leitor, seja um otimista, peço, então, que substitua a questão anterior pelas que seguem: se esse fosse o último ano de minha vida, teria valido a pena? Poderia ser esse o ano que antecede minha morte? Ou desejaria eu vivê-lo novamente para que o remorso não me consuma os vermes? Aqui sim, pareço encontrar um motivo mais plausível para a bad trip que sempre me assolou nessas ocasiões.
Este ano, porém, as coisas mudaram de figura. Quando me pus a questão, a resposta me apareceu diferente. Não posso negar que minha vida foi conturbada, que magoei, cativei e, novamente, magoei um número considerável de pessoas. Mas, no frigir dos ovos, sei que por menores que sejam os bens, sempre eles nos parecerão compensar os males, e quando me vejo aqui, hoje, em situação completamente reversa e distinta daquela do último ano, sinceramente confesso: não consigo não me orgulhar de minhas decisões. Sei muito bem que tudo isso tem haver com o término de minha vida de casado e, sobretudo, com as aventuras de um emergente neo-solteiro, mas, de tudo isso, o que importa é unicamente a disposição com a qual entrego-me ao mundo. E se essa disposição é a de alguém que deseja foder, foder e foder caoticamente com tudo, sinceramente, não vejo como não me simpatizar com um tipo desses. Principalmente quando, no final, me pego dizendo: se esse fosse o último ano de minha vida, certamente, haveria valido a pena!
Não obstante tal disposição, aqui estou, no primeiro dia do ano, sozinho, depois de jogar inúmeras partidas de xadrez contra o computador e arfar a segunda garrafa de vinho – para os curiosos, mais ganhei do que perdi, sou bom nessa joça. Aqui eu, triste, deprimido e enfadado comigo mesmo, desejando retirar o fogo da Glock PT do cofre e ascende-la sobre a luz de um Jack Daniel's. Por tal razão, ainda me pergunto: se esse ano foi tão doido, por que a depressão ainda me morde o rabo?
Talvez seja porque vejo as pessoas sorridentes, contentes, felizes e pateticamente saltitantes. Não se trata de inveja; mas, se todo mundo está feliz, alguma coisa deve andar errada. Afinal, neste ano, como nos outros, a mega-sena nunca foi para todos – o que, para mim, sempre constituiu prova da inexistência de Deus. De qualquer modo, se não sei ao certo o motivo de tanto contentamento, por precaução, penso ser melhor me resguardar triste. Pelo menos me mantenho na linha, enquanto aguardo o mundo voltar ao normal, pois, se é verdade que “tristeza não tem fim”, também não é mentira que “felicidade sim”.
Não obstante, para resguardar minha vida, sempre me preparo para a ocasião, guardo a Glock no cofre, escondo as garrafas de Jack Daniel's e seja lá o que aquele-que-não-existe quiser. 

 


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O CINEMA DE TARANTINO - mauro baptista


Depois de assistir, no último FICA, a um curso de três dias com o cineasta Mauro Baptista, enfim, pude acabar de ler o livro resultante da adaptação de sua tese de doutoramento (publicada pela editora Papirus, na excelente coleção Campo Imagético), intitulado: O cinema de Quentin Tarantino.
Como a generalidade do título aponta, a proposta consiste em uma análise de todos os filmes dirigidos por Tarantino. Projeto que o livro cumpre parcialmente, visto que a apreciação dos últimos quatro filmes do diretor (Kill Bill I, Kill Bill II, À prova de morte e Bastardo Inglórios) apresenta-se demasiadamente en passant em relação à análise pormenorizada dos três primeiros (Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown). Ainda assim, creio que o livro cumpre sua função, sobretudo ao apontar e contextualizar os principais recursos que posicionam Tarantino como um dos grandes mestres do cinema pós-moderno: a encenação do cotidiano, o posicionamento de câmara, as preferências de decupagem, a inversão de gêneros, a citação, a ruptura da linearidade temporal, o recurso aos jogos, às paródias, aos pastiches e a outras técnicas mais.
Nesse sentido, se por um lado, o livro consiste em excelente guia para uma leitura mais aprofundada da obra do cineasta, por outro, também se apresenta como um bom texto de aproximação para os que – como eu – desejem aprofundar seus conhecimentos sobre a sétima arte. Vale ressaltar, todavia, que a eficácia alcançada pelo livro em relação ao conteúdo, eclipsa-se com a pouca afinidade manifesta no que tange à quinta arte; nesse quesito, o texto peca pela redundância assim como, vez por outra, pela ausência de coesão entre as unidades que compõem cada capítulo.
Enfim, sobre a perspectiva de que os fins justificam os meios, acredito que O cinema de Quentin Tarantino apresenta-se como um belo convite para que posicionemos, em profundidade, um olhar a mais para as telas.    

Denis, Benoît. Literatura e engajamento: de Pascal a Sartre. Tradução de Luiz Dagobert de Aguirra Roncari. Bauru: Edusc, 2002.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Jorge Luis Borges - Perfis e Elogio da Sombra


Dois textos de Jorge Luís Borges que não desejo comentar: Elogio da Sombra (1969) e Perfis (1970).

O primeiro por ser obra de versos e, como já estabelecido, não me meto a comentar livros de poesia (ultimamente tenho evitado, inclusive, lê-los, salvo raras exceções, como o caso de Borges). Quanto a este, limito-me a dizer se tratar do quinto livro de versos do autor, ditado na Biblioteca Nacional por um Borges setuagenário e completamente cego: “Minha principal preocupação nessa obra, que percorre várias de suas peças, é de natureza ética, sem considerar qualquer preconceito religioso ou anti-religioso. ‘Sombra’, no título, representa tanto a cegueira quanto a morte.”
O segundo por se tratar de um ensaio autobiográfico, não havendo, assim, muito a ser comentado que já não tenha sido, inclusive, escrito por mim durante a leitura de outras biografias – sempre ancoradas neste ensaio – sobre este mesmo autor.

 Pelo teor dos textos, penso que, talvez, a escuridão tenha iludido Borges quanto à presença da morte: “Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum”. Penso que soubesse ele estar a quase duas décadas distante da morte e o elogio seria outro.
No mais, transcrevo alguns poemas do Elogio da Sombra, na certeza de que os mesmos, melhor do que ninguém, digam o que aqui pausamos para não dizer.



The Unending Gift


Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada. Existe de algum modo.
Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco. (Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)

As coisas


A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, Atlas, taças, cravos,
Nos servem como táticos escravos,
Cegas e, estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

Rubaiyat


Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.


Volte a afirmar que é a cinza, o fogo,
A carne o pó, o rio a fugitiva
Imagem de tua vida e de minha vida
Que lentamente esse nos vai de logo.

Volte a afirmar o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é momento.

Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta unicamente no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.

Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como torna no temporão
Azul a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de buscar-te em vão.

Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.

Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.


 






quarta-feira, 28 de julho de 2010

1984 George Orwell


Minha vontade de ler 1984 era tão antiga quanto a imagem que guardo do Raul Seixas, assentado no alto de uma escada, com o dito livro em mãos. Projeto que remonta minha adolescência, quando os cabelos cresciam pela primeira vez e o desejo de modificar o mundo apresentava-se latente na respiração. Depois da leitura de Admirável mundo novo, então, 1984 era o degrau natural na apreciação de uma literatura engajada. Todavia, por equívoco do acaso – depois de uma tentativa frustrada em 1999 –, somente agora pude dar vazão ao projeto.
Tido como o principal romance de George Orwell – pseudônimo de Eric Arthur Blair –, 1984 reflete a desconfiança do autor em relação ao projeto comunista, sobretudo após o nefasto desencadeamento do stalinismo. De certa maneira, o discurso apresentado na obra é o mesmo exposto em Revolução dos bichos: não seria o totalitarismo uma resultante natural do pós-revolução?
 
-         Como é que um homem afirma seu poder sobre o outro, Winston?
Winston refletiu.
-         Fazendo-o sofrer. Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntar da forma que se entender (...).
(...) Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre.

Nesse sentido, Winston aparece-nos como testemunha principal de uma sociedade que, sob o pretexto da igualdade, busca eliminar a humanidade inerente aos indivíduos. Liderada pela enigmática figura do Grande Irmão, encarnação máxime do Partido, a sociedade pós-revolucionária da Oceania transforma-se no símbolo da repressão e do controle estatal. Vigiado pela presença maciça e virtual das teletelas, os cidadãos, pouco a pouco, são desprovidos de todos desejos particulares que não os resultantes de uma lealdade incondicional aos interesses do Partido. Neste contexto, o argumento do livro segue um roteiro que se tornaria previsível em obras do gênero: uma descrição excessiva das injustiças seguida de uma tentativa de rebelião, a qual, embora frustrada, representa o símbolo da luta pela liberdade.
Confesso ter tido certo desapontamento não apenas quanto ao projeto, mas também quanto ao caráter de ficção-científica assumido na obra (o qual, não raras vezes, me soou inclusive infantil: novilingua, crimidéia, duplipensar...). Sem contar a decepção estética, fruto de um projeto de literatura engajada que, muitas vezes, chega a tornar-se panfletário:

O meu ponto de partida é sempre um sentimento de partilha, uma noção de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim ‘vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar atenção, e acredito sempre que vou encontrar quem me ouça.

Talvez, houvesse dado cabo da leitura quando ela se me impôs pela primeira vez e a chance de apreciar a obra fosse maior. Contudo, não sendo este o caso, também não o é o resultado. Novamente, não sei em que medida meu juízo encontra-se condicionado pela expectativa, mas, tenho a impressão de que, aqui, uma coisa independe da outra. O que não significa que o livro não tenha lá seus caprichos, porém, como também tenho os meus, creio que hoje dificilmente recomendaria a leitura do mesmo. 
Por fim, para terminar pelo princípio, resta comentar o título da obra: 1984. Não entendo bem o porquê, mas, desde sempre a escolha me agrada. Por anos acreditei que a leitura dar-me-ia algum indício que justificasse o título. Mais uma vez, ledo engano. Apesar da evidência de que a utilização de uma data futura objetivasse encampar os elementos futurísticos presentes no livro, ainda assim, nada me parece precisar com mais detalhes a escolha do mesmo. A não ser que se tratasse de simples brincadeira do autor, de uma mera inversão na data de composição do livro: 19-48 para 19-84. Nunca pesquisei sobre o assunto, mas, de qualquer modo, sejam quais forem os motivos, eis mais um caso em que a sugestividade do título parece-me superar em muito o desenvolvimento da obra.
Ética e Literatura em Sartre: ensaios introdutórios
de FRANKLIN LEOPOLDO E SILVA
Col. Biblioteca de Filosofia/Marilena Chauí (dir.),
Floriano Jonas César (org.).
São Paulo: Editora Unesp • 2004 • 260p. • ISBN 85-7139-515-2

domingo, 25 de julho de 2010

"Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" - Rubem Fonseca


         

“Acordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo. Procurei fixar minha visão na faixa de luz da madrugada que entrava por entre as cortinas. O risco leitoso tremia rapidamente. Mover a cabeça na direção da luminosidade da janela tornara minha queda ainda mais vertiginosa. Fiquei imóvel, o olhar fixo na linha de luz, esperando a crise passar. (...) Mantendo imóvel o corpo estendi a mão e apanhei o remédio sobre a mesinha de cabeceira. Mastiguei a pílula até que se tornasse uma pasta repugnante que engoli com dificuldade, sentindo ânsias de vômito, que felizmente não passaram de violentos engulhos que fizeram meu corpo tremer, aumentando ainda mais minha tontura. O remédio algumas vezes fazia efeito rapidamente, outras não. Duas horas depois, ao engolir, com os mesmos sofrimentos nojentos, a segunda pílula, o ataque passara. Pude então levantar-me e abrir a porta”.

           Toda vez que releio este parágrafo introdutório, de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988), não consigo remeter meu pensamento para outro canto que não seja a toca do coelho que afunda Alice para sua queda no fantástico mundo subterrâneo. Para um leitor de Carroll, a estratégia criada por Rubem Fonseca, realmente, soa muito familiar, não apenas pelo fato da queda representar uma passagem entre mundos, isto é, uma inserção do personagem em outra realidade – Alice no fantástico mundo das maravilhas e o cineasta de Fonseca no vasto mundo de imperfeições e emoções não menos insólitas –, mas, sobretudo, pelas coincidências que circundam tal transposição. Apesar da inversão situacional que antepõe ambas as histórias – Alice passa da vigília para o mundo onírico e o cineasta de Rubem do mundo de sonhos para a vida –, o modus operandi dos autores resguarda inúmeras semelhanças. Basta notar que tanto Alice quanto o cineasta lançam mão da ingestão de alguma substância farmacológica, as quais se situam alojadas em suas respectivas mesinhas, para realizar o movimento de transição que permitirá ao autor dar cabo da história. Cabe ainda notar como a transição de realidades será marcada nas obras pela presença singular e não menos metafórica da “abertura de uma porta”, a qual, uma vez conquistada, abrirá passagem para dentro ou para fora (conforme cada um dos textos)  da realidade onírica. 
            Contudo, para além da similaridade de estratégia das passagens – a qual, inclusive constitui-se como recurso recorrente na literatura infantil, por exemplo: O mágico de Oz –, uma vez escancaradas as cortinas, as histórias naturalmente tratarão de conduzir o leitor para realidades senão diametralmente opostas, ao menos bastante divergentes. O que não era para menos, afinal, como legítimo homem de nosso século, o leitmotiv de Fonseca não poderia ser outro que não o de arrastar-nos para dentro da consciência de sua personagem, sacudindo-nos, em primeira pessoa, com toda parcialidade, com toda turbulência e com toda distorção própria da percepção de um protagonista que não nos concede nada mais do que sua visão da história. A qual, nem por isso, se nos apresenta parcial. Graças à eficácia de Fonseca (este é mais um romance daqueles, como se diz: “que se lê numa só cagada”), que consegue confundir seus leitores a ponto de que os mesmos não possam distanciar suas próprias consciências daquela intencionada pelo personagem. Parodiando as feministas, seria como se entrássemos em uma sala cirúrgica e, ao acordar, descobríssemos estar ligados à outra consciência, com direito de perscrutá-la em todos seus movimentos e sem possibilidade de nos desligarmos, a não ser, evidentemente, com a morte de nosso comensal de pensamentos. Por conta de tudo isso, não me resta dúvidas de que Fonseca foi mais feliz do que Carroll no desdobramento da estratégia que partilham em suas respectivas narrativas. 
            Resta, por fim, dizer que o sucesso obtido pelo autor não é menos devido a seu exemplar posicionamento de câmara do que ao brilhante argumento do roteiro. Longe dos maçantes planos gerais e panorâmicos de Carroll, Rubem Fonseca não hesita em transitar com uma nervosa câmara de mão, abusando da mudança de planos sem, no entanto, perder a subjetividade de câmara do narrador. Dando-nos a impressão de que, a cada página, estamos cada vez mais a escoar para dentro da tela na qual se desenvolve a trama de um legítimo filme noir. Quanto ao roteiro, uma vez que o principal personagem é um cineasta, somado ao fato de que aqui o romance não parece se separar do filme, penso não ser ilegítimo identificar certa circunstância metalingüística na obra.
            No mais, fica o desejo de que Vastas emoções e pensamentos imperfeitos torne-se mais um dos filmes do Quentin Tarantino. Enquanto tal não acontece, a cada um dos leitores, resta o receio de estar, página a página, inserindo imagens menos perfeitas do que requerem todas as imperfeições descritas na obra.

Borboleta

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O escritor Jorge Xerxes também nos brinda com seus maldizeres

Salve Borboleta!
Ontem terminei a leitura de seu livro.
Cara, É Excepcional - Você Está de Parabéns!
Agora vou emprestá-lo para o meu Pai, que sendo
natural de Uberaba, está interessadíssimo na
leitura.
Ontem à noite escrevi uma "resenha-torta" / conto
ins-pirado pela leitura, que encaminho-te.
Postei no "Letras et cetera" e também no banco de
textos do "Portal Literal".
Um Grande Abraço! Jorge X
PS: Meus contos prediletos são: "Engano", "O Bolso",
"Casa Alemã", "A Quarta Verdade" e "Non Veritas" -
nessa ordem; porém ressalto que Gostei de Todos.

Da semelhança do alfabeto com os números primos


Centelha primordial

Aconteceu por obra de alguns versos escritos em momentos de embriaguez confessa; por obra de esses terem abandonado os recônditos de um guardanapo sujo e caírem na rede mundial de computadores, que recebi, dia desses, aquele  suspeito volume envolto em papel pardo. O título “Pára-Raio de Loucos” de Fábio Amorim de Matos Júnior – que responde pela alcunha de B. –, publicado pela Assis Editora no ano de MMIX, antecipava, de certo modo, a astúcia premeditada da qual eu quedaria vítima.

De alguma forma, B. havia perscrutado meus atos pregressos e atinado que eu teria a inclinação para os pensamentos e atitudes inebriantes. De modo que, aquele seu livro poderia, sem dúvida, servir de catalisador para a experiência.

Iniciação

Uma apreciação convencional de obra tão inusitada mostrou-se infrutífera e tive de lançar mão de técnicas não ortodoxas de leitura. Inúmeras estratégias postas à prova levaram-me a devaneios vãos. Até que, enfim, num ato de extremo desespero e insensatez, amarrei os meus pés ao lustre da pequena sala de estar – valendo-me do cabo elétrico de meu ferro de passar roupa, que a essa altura de nada mais me serviria – e recomecei pelas epígrafes e recomendações de personagens ilustres.

Como que assaltado pela magia dos microchiroptera, um estranho senso de ecolocalização assaltou-me a percepção acrescentando elementos que possibilitaram a expansão dos sentidos. Então, meio que por mágica, meio que ao acaso, compreendi o magnânimo plano que B. havia traçado para a viagem.

Compreendi, de súbito, que Filomena e o capoeirista do conto “Engano” assumiam as designações de Palmira e o rapaz do Chevrolet prateado, respectivamente, noutro texto seu – “O Bolso”. E isso seria pouco, se não houvesse mais: Nestor, de “Casa Alemã”, era o mesmo ente que respondia pela alcunha de Tufão (Lúcifer ou Satanás?) em “Engano” e Veritas – noutro canto (ou conto?). B. bem sabe que não é possível construir uma morada sólida sobre amontoados de papéis.

Mas hei de convir que concorde com o autor, especialmente, sobre o seguinte excerto, extraído de “A Quarta Verdade”: Embora nenhuma dessas observações tenha me permitido avançar na investigação, ao menos, devo reconhecer, permitiram-me elas encontrar minha terceira certeza provisória; a qual indica, definitivamente, que o segredo do universo não se encontra entre os números.

Afinal, o que esperar de um autor como B., que sempre viveu sob as restrições imputadas aos moradores da cidade de Nefelococigia?

 – Nossa, Dinha! Qui partido bão!
 – Bão qui num é pra nada. Lôco sim qu’eli é.
 – Cum’assim? Eli num bati bem?
 – Pois’é, num regula muito não: é poeta!
 – Maise qui dispirdício!
 – Puis’intão, j’éra avuado di antis, dispois dus acuntecido intão...
 – Acuntecido?
 – Foi, a muié dele morreu parinu.
 – Deus do Céu, coitado!
 – I pra piora’inda mais, o fio qui broto vêi mêi arretardado!
 – Mais u ingastaio maió é outro...
 – Qual’é Dinha?
 – ...di tanto qui a doidura subiu pra menti, eli crio o fio comu si o minino fossi um cachorro.
 – Virge Santíssima! Deus mi livre guarde!
 – Amém!

A prática da magia

Permaneci de ponta cabeça; com os pés presos próximo à altura do teto, feito um morcego. Na falta de sangue, o que eu bebia mesmo era vinho tinto, de canudinho; ao longo de noites consecutivas. Compreendo dois fatores que favoreceram sobremaneira a evolução do meu senso de ecolocalização – viva o efeito Doppler! – multiplicador da consciência: (a) maior irrigação sanguínea cerebral; (b) a luminária, que agora clareava de baixo para cima.

Os números primos são os átomos da aritmética. Os gregos foram os primeiros a perceber que qualquer número natural, exceto o um, pode ser gerado pela multiplicação de números primos, então denominados “blocos de construção”. Número primo é o número natural que tem exatamente dois divisores: o número um e ele mesmo. Os dezesseis primeiros números primos positivos são: 2, 3, 5, 7, 11, 13, 17, 19, 23, 29, 31, 37, 41, 43, 47 e 53.

Prossegui então com os experimentos antevistos por B.; lendo e relendo de diferentes maneiras àquela obra de natureza singular. De início, lia o livro de ponta cabeça, imaginando que, estando eu próprio nessa posição, isso possibilitaria uma compreensão corrigida, com relação ao referencial Terra: ledo engano! Por fim, selecionava trechos. Passei a picar o livro com uma tesoura e colar os retalhos em alvas folhas de papel. Com o tempo, percebi que era possível criar outras obras a partir dos trechos originalmente concebidos por B. Consecutivamente, dediquei-me a elaborar trechos cada vez mais efêmeros. Por vezes eram palavras apenas. Outrora, sílabas isoladas que, combinadas com outras sílabas, produziam palavras que B. já as tinha imaginado, mas que só agora eu as percebia em extensão a real dislexia.

Em estágio avançado de minha loucura, quando já não me bastavam as sílabas: eu recortava letras isoladas do livro e as organizava em palavras, que viriam a ser sentenças, pretensas estrofes de complexos raciocínios outros. Enfim, sabemos que nosso alfabeto latino é composto de vinte e seis letras:

a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z

Mas descobri – sob a influência de B. – que dessas, em verdade, apenas vinte e duas são os átomos das palavras. Visto que as letras d, h, m e w são compostas de outras letras – os blocos de construção – letras primas, objetos de minha própria insanidade.

a b c cl e f g ln i j k l nn n o p q r s t u v vv x y z

Metamorfose

Inclepenclentennente clo caráter subjetivo que se atribui às letras, às palavras, às sentenças e ao próprio encacleannento lógico clos raciocínios; entenclenclo-se a literatura conno unn espaço transcenclente clo real; unn conjunto que acrescenta ao quoticliano clos clias; ao pesaclo farclo cle nossas viclas innputaclas pura e sinnplesnnente pelas leis naturais – alénn  claquelas contingências cle nnercaclo, que nós nnesnnos nos innputannos –; venlno afirnnar que pára-raios são proviclenciais a alocação cle elennentos subjetivos e a sobrevivência nesse nnunclo, parco clas icléias: a unn nnergullno profunclo no século XXI.




Depois disso, o pastor Kassius também maldiz o livro

Fábio Amorim,
 
Tudo ok ?
Entrei de férias
e a primeira coisa que fiz
foi ler seu livro,
Cara......
Você ficou doido?
Parabéns, é isso aí, mandou bem.
Obs: usei luvas isolantens.  rsrsrsrsrs
 
Att. Kassius
(o neto da avó aristotélica)

sábado, 17 de julho de 2010

Mais um do Rubão: O caso Morel


Não saberia indicar o nível de responsabilidade de minhas expectativas, mas o certo é que O caso Morel já me chegou às mãos com ar de atraso e com forte projeção quanto a seu conteúdo. Realmente, depois de toda espera, a esperança de encontrar em suas páginas alguma menção explícita, ou mesmo, quem sabe, uma continuação inesperada para a Invenção de Morel – de Adolfo Bioy Casares – já tomava mais do que os contornos de meu espírito. Lembro, inclusive, de já ter deixado alguma nota por aqui sobre a possibilidade de aproximação entre as obras. Entretanto, somente agora percebo que, para além de um nome estampado na capa, nenhuma outra relação estabelece-se entre elas.
Não desejo confessar que esteja cá criando desculpas para, dada minha fascinação pelo autor, redimir meu juízo (embora, talvez seja esse o caso), mas, o fato é que foi este o texto de Rubem Fonseca que menos surtiu impacto em meu lóbulo estético. Contudo, como disse há pouco, quiçá seja o caso de minhas expectativas... e daí... quem sabe... eu... enganado...obra-prima...etcétera.
Outra explicação possível encerra-se na compreensão de que dificilmente a primeira apresentação de um autor alcança a mesma maestria de seu legado. Afinal, como diria o estapafúrdio Raul: “o homem é o exercício quem faz”. Ainda assim, neste caso, poderia se objetar – {além de dezenas de exemplos em contrário [as quais eu poderia alegar tratar-se de exceções (e o leitor retrucar atacando a fragilidade da regra)]} – que O caso Morel não se posiciona como o primeiro livro de Fonseca, já antecedido por Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) e Lúcia McCartney (1967). Não obstante, far-se-ia relevante notar que, ainda assim, o livro figura como a primeira assinatura do autor sobre a capa de um romance (e o romance? como me perguntava o finado Noberto Estevildo: “todo romance é um romance?”).
Sei que a discussão daí decorrente, mais do que pano para manga, seria suficiente para encapar todo um manguezal. Do mesmo modo, sei que “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Todavia, também sei não ser coisa das mais fáceis emudecer a voz que sopra nos ouvidos do esquizofrênico, ainda mais, quando seus ecos se revestem com o sotaque do professor Machado, a nos ensinar que a redação de um conto apresenta mais dificuldades do que a de um romance. Seria este o caso? Ou, talvez antes, seria isso verdadeiro? Bem, de qualquer modo, antes que as mangas caíam-me sobre a cabeça – e, por não se tratarem de maçãs, eu nem consiga descobrir algum dos segredos sobre a natureza do universo, nem consiga desfrutar um minuto de pecado com alguma Eva –, creio ser melhor aceitar a sugestão do Wittgenstein e recuar do assunto.
De volta ao tema, é preciso salientar que dizer que o romance de 1973 não possui a mesma real grandeza do  restante da obra, não significa dizer que o texto seja de todo ruim – por favor, não ponham palavras, ou melhor, não as retirem de minha boca. Afinal, não se dá aqui o que ocorre com tantas dessas literaturas que encontramos pelos becos, que levamos para casa, que concedemos nosso sem-tempo e que, depois da primeira noite mal dormida, já nos leva à amargura do nojo e do arrependimento. Ou seja, o livro possui lá seu valor: o comparecimento de personagens marcantes, a perfeita inserção dos mesmos nas especificidades do mundo que os circunscreve, a intriga marcante, o crime capitular e – como não poderia deixar de fonseca-ser – a adocicada presença da perversão sexual; afinal,  o “mundo só pensa em sexo, tudo é sexo, regime para emagrecer, cirurgia plástica, cosméticos, moda, cultura, religião, política, poder, ciência, arte, comunicação, está tudo a serviço do sexo!” (alguém por ai já notou que o cinema de Tarantino é puro Rubem Fonseca nas telas? alguém por aí já notou que a literatura de Fonseca é puro cinema exploitation em páginas?). Mas, o melhor do livro fica por conta da incógnita final, afinal, nem sempre o final carrega consigo o finalmente. E se já não sabíamos se Capitu, realmente, trouxe a marca do boi para o pacato Bentinho, agora também não sabemos se Morel é ou não culpado no crime pelo qual fora condenado.
Ainda assim, alguma coisa parece-me faltar, alguma coisa que não sei exatamente o quê, mas que, se um dia me for dado saber, juro jamais reescrever!