segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FELIZ ANO VELHO



A porra do ano novo sempre me causou depressão. Por muito tempo tive a impressão de que tal disposição devia-se à minha fotofobia pela cor branca; nunca fui racista, mas sempre detestei usar branco: camisa branca, calça branca, tênis branco, então, nem se fala. Lembro-me que, quando adolescente, gostava de passar a virada todo de preto, para contrastar com aquela lengalenga toda; mas, depois que os últimos cabelos “desencumpridaram” e, por fim, começaram a descer, contentei-me em rejeitar aquele traje de médico-pai-de-santo-enfermeiro-dentista-açougueiro exigido para a ocasião.
Hoje, porém, também sei que meu estado de entropia nunca foi resultado somente da ausência das cores, mas, talvez, deva-se muito mais a uma certa reflexão que nunca nos abandona em épocas de transição, por mais que tentemos menosprezar a referida data. Afinal, os planos e disposições para o ano vindouro sempre carregam em si uma outra questão: o que fiz, até agora, da merda da minha vida?
Penso que, na maioria das vezes, a resposta para tal questão apresenta-se trágica. Mas, caso você, enfadonho leitor, seja um otimista, peço, então, que substitua a questão anterior pelas que seguem: se esse fosse o último ano de minha vida, teria valido a pena? Poderia ser esse o ano que antecede minha morte? Ou desejaria eu vivê-lo novamente para que o remorso não me consuma os vermes? Aqui sim, pareço encontrar um motivo mais plausível para a bad trip que sempre me assolou nessas ocasiões.
Este ano, porém, as coisas mudaram de figura. Quando me pus a questão, a resposta me apareceu diferente. Não posso negar que minha vida foi conturbada, que magoei, cativei e, novamente, magoei um número considerável de pessoas. Mas, no frigir dos ovos, sei que por menores que sejam os bens, sempre eles nos parecerão compensar os males, e quando me vejo aqui, hoje, em situação completamente reversa e distinta daquela do último ano, sinceramente confesso: não consigo não me orgulhar de minhas decisões. Sei muito bem que tudo isso tem haver com o término de minha vida de casado e, sobretudo, com as aventuras de um emergente neo-solteiro, mas, de tudo isso, o que importa é unicamente a disposição com a qual entrego-me ao mundo. E se essa disposição é a de alguém que deseja foder, foder e foder caoticamente com tudo, sinceramente, não vejo como não me simpatizar com um tipo desses. Principalmente quando, no final, me pego dizendo: se esse fosse o último ano de minha vida, certamente, haveria valido a pena!
Não obstante tal disposição, aqui estou, no primeiro dia do ano, sozinho, depois de jogar inúmeras partidas de xadrez contra o computador e arfar a segunda garrafa de vinho – para os curiosos, mais ganhei do que perdi, sou bom nessa joça. Aqui eu, triste, deprimido e enfadado comigo mesmo, desejando retirar o fogo da Glock PT do cofre e ascende-la sobre a luz de um Jack Daniel's. Por tal razão, ainda me pergunto: se esse ano foi tão doido, por que a depressão ainda me morde o rabo?
Talvez seja porque vejo as pessoas sorridentes, contentes, felizes e pateticamente saltitantes. Não se trata de inveja; mas, se todo mundo está feliz, alguma coisa deve andar errada. Afinal, neste ano, como nos outros, a mega-sena nunca foi para todos – o que, para mim, sempre constituiu prova da inexistência de Deus. De qualquer modo, se não sei ao certo o motivo de tanto contentamento, por precaução, penso ser melhor me resguardar triste. Pelo menos me mantenho na linha, enquanto aguardo o mundo voltar ao normal, pois, se é verdade que “tristeza não tem fim”, também não é mentira que “felicidade sim”.
Não obstante, para resguardar minha vida, sempre me preparo para a ocasião, guardo a Glock no cofre, escondo as garrafas de Jack Daniel's e seja lá o que aquele-que-não-existe quiser. 

 


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