Dois textos de Jorge Luís Borges que não desejo comentar: Elogio da Sombra (1969) e Perfis (1970).
O primeiro por ser obra de versos e, como já estabelecido, não me meto a comentar livros de poesia (ultimamente tenho evitado, inclusive, lê-los, salvo raras exceções, como o caso de Borges). Quanto a este, limito-me a dizer se tratar do quinto livro de versos do autor, ditado na Biblioteca Nacional por um Borges setuagenário e completamente cego: “Minha principal preocupação nessa obra, que percorre várias de suas peças, é de natureza ética, sem considerar qualquer preconceito religioso ou anti-religioso. ‘Sombra’, no título, representa tanto a cegueira quanto a morte.”
O segundo por se tratar de um ensaio autobiográfico, não havendo, assim, muito a ser comentado que já não tenha sido, inclusive, escrito por mim durante a leitura de outras biografias – sempre ancoradas neste ensaio – sobre este mesmo autor.
Pelo teor dos textos, penso que, talvez, a escuridão tenha iludido Borges quanto à presença da morte: “Espero que o leitor descubra em minhas páginas algo que possa merecer sua memória; neste mundo a beleza é comum”. Penso que soubesse ele estar a quase duas décadas distante da morte e o elogio seria outro.
No mais, transcrevo alguns poemas do Elogio da Sombra, na certeza de que os mesmos, melhor do que ninguém, digam o que aqui pausamos para não dizer.
The Unending Gift
Um pintor nos prometeu um quadro.
Agora, em New England, sei que morreu. Senti, como outras vezes, a tristeza de compreender que somos como um sonho. Pensei no homem e no quadro perdidos.
(Só os deuses podem prometer, porque são imortais.)
Pensei num lugar prefixado que a tela não ocupará.
Pensei depois: se estivesse aí, seria com o tempo uma coisa mais, uma coisa, uma das vaidades ou hábitos da casa; agora é ilimitada, incessante, capaz de qualquer forma e qualquer cor e a ninguém vinculada. Existe de algum modo.
Viverá e crescerá como uma música e estará comigo até o fim. Obrigado, Jorge Larco. (Também os homens podem prometer, porque na promessa há algo imortal.)
As coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, Atlas, taças, cravos,
Nos servem como táticos escravos,
Cegas e, estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.
Rubaiyat
Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza, o fogo,
A carne o pó, o rio a fugitiva
Imagem de tua vida e de minha vida
Que lentamente esse nos vai de logo.
Volte a afirmar o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa, e que à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é momento.
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta unicamente no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como torna no temporão
Azul a teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de buscar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.



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