domingo, 25 de julho de 2010

"Vastas emoções e pensamentos imperfeitos" - Rubem Fonseca


         

“Acordei tentando me segurar desesperadamente, tudo girava em torno de mim enquanto eu caía sem controle num abismo sem fundo. Procurei fixar minha visão na faixa de luz da madrugada que entrava por entre as cortinas. O risco leitoso tremia rapidamente. Mover a cabeça na direção da luminosidade da janela tornara minha queda ainda mais vertiginosa. Fiquei imóvel, o olhar fixo na linha de luz, esperando a crise passar. (...) Mantendo imóvel o corpo estendi a mão e apanhei o remédio sobre a mesinha de cabeceira. Mastiguei a pílula até que se tornasse uma pasta repugnante que engoli com dificuldade, sentindo ânsias de vômito, que felizmente não passaram de violentos engulhos que fizeram meu corpo tremer, aumentando ainda mais minha tontura. O remédio algumas vezes fazia efeito rapidamente, outras não. Duas horas depois, ao engolir, com os mesmos sofrimentos nojentos, a segunda pílula, o ataque passara. Pude então levantar-me e abrir a porta”.

           Toda vez que releio este parágrafo introdutório, de Vastas emoções e pensamentos imperfeitos (1988), não consigo remeter meu pensamento para outro canto que não seja a toca do coelho que afunda Alice para sua queda no fantástico mundo subterrâneo. Para um leitor de Carroll, a estratégia criada por Rubem Fonseca, realmente, soa muito familiar, não apenas pelo fato da queda representar uma passagem entre mundos, isto é, uma inserção do personagem em outra realidade – Alice no fantástico mundo das maravilhas e o cineasta de Fonseca no vasto mundo de imperfeições e emoções não menos insólitas –, mas, sobretudo, pelas coincidências que circundam tal transposição. Apesar da inversão situacional que antepõe ambas as histórias – Alice passa da vigília para o mundo onírico e o cineasta de Rubem do mundo de sonhos para a vida –, o modus operandi dos autores resguarda inúmeras semelhanças. Basta notar que tanto Alice quanto o cineasta lançam mão da ingestão de alguma substância farmacológica, as quais se situam alojadas em suas respectivas mesinhas, para realizar o movimento de transição que permitirá ao autor dar cabo da história. Cabe ainda notar como a transição de realidades será marcada nas obras pela presença singular e não menos metafórica da “abertura de uma porta”, a qual, uma vez conquistada, abrirá passagem para dentro ou para fora (conforme cada um dos textos)  da realidade onírica. 
            Contudo, para além da similaridade de estratégia das passagens – a qual, inclusive constitui-se como recurso recorrente na literatura infantil, por exemplo: O mágico de Oz –, uma vez escancaradas as cortinas, as histórias naturalmente tratarão de conduzir o leitor para realidades senão diametralmente opostas, ao menos bastante divergentes. O que não era para menos, afinal, como legítimo homem de nosso século, o leitmotiv de Fonseca não poderia ser outro que não o de arrastar-nos para dentro da consciência de sua personagem, sacudindo-nos, em primeira pessoa, com toda parcialidade, com toda turbulência e com toda distorção própria da percepção de um protagonista que não nos concede nada mais do que sua visão da história. A qual, nem por isso, se nos apresenta parcial. Graças à eficácia de Fonseca (este é mais um romance daqueles, como se diz: “que se lê numa só cagada”), que consegue confundir seus leitores a ponto de que os mesmos não possam distanciar suas próprias consciências daquela intencionada pelo personagem. Parodiando as feministas, seria como se entrássemos em uma sala cirúrgica e, ao acordar, descobríssemos estar ligados à outra consciência, com direito de perscrutá-la em todos seus movimentos e sem possibilidade de nos desligarmos, a não ser, evidentemente, com a morte de nosso comensal de pensamentos. Por conta de tudo isso, não me resta dúvidas de que Fonseca foi mais feliz do que Carroll no desdobramento da estratégia que partilham em suas respectivas narrativas. 
            Resta, por fim, dizer que o sucesso obtido pelo autor não é menos devido a seu exemplar posicionamento de câmara do que ao brilhante argumento do roteiro. Longe dos maçantes planos gerais e panorâmicos de Carroll, Rubem Fonseca não hesita em transitar com uma nervosa câmara de mão, abusando da mudança de planos sem, no entanto, perder a subjetividade de câmara do narrador. Dando-nos a impressão de que, a cada página, estamos cada vez mais a escoar para dentro da tela na qual se desenvolve a trama de um legítimo filme noir. Quanto ao roteiro, uma vez que o principal personagem é um cineasta, somado ao fato de que aqui o romance não parece se separar do filme, penso não ser ilegítimo identificar certa circunstância metalingüística na obra.
            No mais, fica o desejo de que Vastas emoções e pensamentos imperfeitos torne-se mais um dos filmes do Quentin Tarantino. Enquanto tal não acontece, a cada um dos leitores, resta o receio de estar, página a página, inserindo imagens menos perfeitas do que requerem todas as imperfeições descritas na obra.

Borboleta

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