Minha vontade de ler 1984 era tão antiga quanto a imagem que guardo do Raul Seixas, assentado no alto de uma escada, com o dito livro em mãos. Projeto que remonta minha adolescência, quando os cabelos cresciam pela primeira vez e o desejo de modificar o mundo apresentava-se latente na respiração. Depois da leitura de Admirável mundo novo, então, 1984 era o degrau natural na apreciação de uma literatura engajada. Todavia, por equívoco do acaso – depois de uma tentativa frustrada em 1999 –, somente agora pude dar vazão ao projeto.
Tido como o principal romance de George Orwell – pseudônimo de Eric Arthur Blair –, 1984 reflete a desconfiança do autor em relação ao projeto comunista, sobretudo após o nefasto desencadeamento do stalinismo. De certa maneira, o discurso apresentado na obra é o mesmo exposto em Revolução dos bichos: não seria o totalitarismo uma resultante natural do pós-revolução?
- Como é que um homem afirma seu poder sobre o outro, Winston?
Winston refletiu.
- Fazendo-o sofrer. Exatamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. A menos que sofra, como podes ter certeza de que ele obedece tua vontade e não a dele? O poder reside em infligir dor e humilhação. O poder está em se despedaçar os cérebros humanos e tornar a juntar da forma que se entender (...).
(...) Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota pisando um rosto humano, para sempre.
Nesse sentido, Winston aparece-nos como testemunha principal de uma sociedade que, sob o pretexto da igualdade, busca eliminar a humanidade inerente aos indivíduos. Liderada pela enigmática figura do Grande Irmão, encarnação máxime do Partido, a sociedade pós-revolucionária da Oceania transforma-se no símbolo da repressão e do controle estatal. Vigiado pela presença maciça e virtual das teletelas, os cidadãos, pouco a pouco, são desprovidos de todos desejos particulares que não os resultantes de uma lealdade incondicional aos interesses do Partido. Neste contexto, o argumento do livro segue um roteiro que se tornaria previsível em obras do gênero: uma descrição excessiva das injustiças seguida de uma tentativa de rebelião, a qual, embora frustrada, representa o símbolo da luta pela liberdade.
Confesso ter tido certo desapontamento não apenas quanto ao projeto, mas também quanto ao caráter de ficção-científica assumido na obra (o qual, não raras vezes, me soou inclusive infantil: novilingua, crimidéia, duplipensar...). Sem contar a decepção estética, fruto de um projeto de literatura engajada que, muitas vezes, chega a tornar-se panfletário:
O meu ponto de partida é sempre um sentimento de partilha, uma noção de injustiça. Quando me sento para escrever um livro, não digo para mim ‘vou produzir uma obra de arte’. Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar atenção, e acredito sempre que vou encontrar quem me ouça.
Talvez, houvesse dado cabo da leitura quando ela se me impôs pela primeira vez e a chance de apreciar a obra fosse maior. Contudo, não sendo este o caso, também não o é o resultado. Novamente, não sei em que medida meu juízo encontra-se condicionado pela expectativa, mas, tenho a impressão de que, aqui, uma coisa independe da outra. O que não significa que o livro não tenha lá seus caprichos, porém, como também tenho os meus, creio que hoje dificilmente recomendaria a leitura do mesmo.
Por fim, para terminar pelo princípio, resta comentar o título da obra: 1984. Não entendo bem o porquê, mas, desde sempre a escolha me agrada. Por anos acreditei que a leitura dar-me-ia algum indício que justificasse o título. Mais uma vez, ledo engano. Apesar da evidência de que a utilização de uma data futura objetivasse encampar os elementos futurísticos presentes no livro, ainda assim, nada me parece precisar com mais detalhes a escolha do mesmo. A não ser que se tratasse de simples brincadeira do autor, de uma mera inversão na data de composição do livro: 19-48 para 19-84. Nunca pesquisei sobre o assunto, mas, de qualquer modo, sejam quais forem os motivos, eis mais um caso em que a sugestividade do título parece-me superar em muito o desenvolvimento da obra.



Entendo sua decepção, Borbola. Eu segui o roteiro inverso: li "1984" antes do "Admirável Mundo Novo". E achei a obra de Huxley muito superior à de Orwell, que já começou a tornar-se obsoleta em 1956, quando Nikita Khrushchev denunciou o stalinismo, e perdeu totalmente o significado com o fim da URSS em 1991. Talvez um norte-coreano encontre coisas significativas, que descrevam seu cotidiano, nesse livro. No resto do mundo, com certeza não.
ResponderExcluirJá o "Admirável Mundo Novo" é um livro admirável... Este sim, na minha opinião, não perdeu sua validez.
Saudações Austrais!
Pois então,
ResponderExcluirEis um bom exemplo das problemáticas que envolvem a proposta de uma literatura engajada: a transitoriedade da obra e a predominância do conteúdo sobre a forma.
Agora veja, na "Revolução dos bichos", não acontece o mesmo. Nesse sentido, dou eterna razão ao Barthes, ao dizer que o propósito da literatura é apresentar um fato que comporta interpretações ambíguas e não, como pretendia o círculo dos franceses, de uma literatura que pouco ou nada se distingue da atividade jornalística.
Fica ai nossa concordância,
Saudações natalinas.
"Eis um bom exemplo das problemáticas que envolvem a proposta de uma literatura engajada: a transitoriedade da obra e a predominância do conteúdo sobre a forma."
ResponderExcluirConcordo, mas quando a crítica não é social ou política, mas cultural/espiritual, como no "Admirável Mundo Novo", a validez é muito mais duradoura. Ou então quando representa problemas de índole mais universal. Mas descrever ou, mais exatamente, imaginar a extrapolação de um fenômeno tão limitado no tempo e no espaço como o totalitarismo stalinista é uma receita infalível para a obsolescência de uma obra.
Aliás, agora estou lendo um livro de Huxley, "O Tempo deve Deter-se", uma edição velha de 1945 que encontrei num sebo perto de casa. Estou ainda no trabalho, quando os chefes forem embora (espero que seja logo) vou continuar lendo.
Aí no eixo Goiás Velho-Uberlândia já é natal? Olha só que louco!