sábado, 17 de julho de 2010

Mais um do Rubão: O caso Morel


Não saberia indicar o nível de responsabilidade de minhas expectativas, mas o certo é que O caso Morel já me chegou às mãos com ar de atraso e com forte projeção quanto a seu conteúdo. Realmente, depois de toda espera, a esperança de encontrar em suas páginas alguma menção explícita, ou mesmo, quem sabe, uma continuação inesperada para a Invenção de Morel – de Adolfo Bioy Casares – já tomava mais do que os contornos de meu espírito. Lembro, inclusive, de já ter deixado alguma nota por aqui sobre a possibilidade de aproximação entre as obras. Entretanto, somente agora percebo que, para além de um nome estampado na capa, nenhuma outra relação estabelece-se entre elas.
Não desejo confessar que esteja cá criando desculpas para, dada minha fascinação pelo autor, redimir meu juízo (embora, talvez seja esse o caso), mas, o fato é que foi este o texto de Rubem Fonseca que menos surtiu impacto em meu lóbulo estético. Contudo, como disse há pouco, quiçá seja o caso de minhas expectativas... e daí... quem sabe... eu... enganado...obra-prima...etcétera.
Outra explicação possível encerra-se na compreensão de que dificilmente a primeira apresentação de um autor alcança a mesma maestria de seu legado. Afinal, como diria o estapafúrdio Raul: “o homem é o exercício quem faz”. Ainda assim, neste caso, poderia se objetar – {além de dezenas de exemplos em contrário [as quais eu poderia alegar tratar-se de exceções (e o leitor retrucar atacando a fragilidade da regra)]} – que O caso Morel não se posiciona como o primeiro livro de Fonseca, já antecedido por Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965) e Lúcia McCartney (1967). Não obstante, far-se-ia relevante notar que, ainda assim, o livro figura como a primeira assinatura do autor sobre a capa de um romance (e o romance? como me perguntava o finado Noberto Estevildo: “todo romance é um romance?”).
Sei que a discussão daí decorrente, mais do que pano para manga, seria suficiente para encapar todo um manguezal. Do mesmo modo, sei que “sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Todavia, também sei não ser coisa das mais fáceis emudecer a voz que sopra nos ouvidos do esquizofrênico, ainda mais, quando seus ecos se revestem com o sotaque do professor Machado, a nos ensinar que a redação de um conto apresenta mais dificuldades do que a de um romance. Seria este o caso? Ou, talvez antes, seria isso verdadeiro? Bem, de qualquer modo, antes que as mangas caíam-me sobre a cabeça – e, por não se tratarem de maçãs, eu nem consiga descobrir algum dos segredos sobre a natureza do universo, nem consiga desfrutar um minuto de pecado com alguma Eva –, creio ser melhor aceitar a sugestão do Wittgenstein e recuar do assunto.
De volta ao tema, é preciso salientar que dizer que o romance de 1973 não possui a mesma real grandeza do  restante da obra, não significa dizer que o texto seja de todo ruim – por favor, não ponham palavras, ou melhor, não as retirem de minha boca. Afinal, não se dá aqui o que ocorre com tantas dessas literaturas que encontramos pelos becos, que levamos para casa, que concedemos nosso sem-tempo e que, depois da primeira noite mal dormida, já nos leva à amargura do nojo e do arrependimento. Ou seja, o livro possui lá seu valor: o comparecimento de personagens marcantes, a perfeita inserção dos mesmos nas especificidades do mundo que os circunscreve, a intriga marcante, o crime capitular e – como não poderia deixar de fonseca-ser – a adocicada presença da perversão sexual; afinal,  o “mundo só pensa em sexo, tudo é sexo, regime para emagrecer, cirurgia plástica, cosméticos, moda, cultura, religião, política, poder, ciência, arte, comunicação, está tudo a serviço do sexo!” (alguém por ai já notou que o cinema de Tarantino é puro Rubem Fonseca nas telas? alguém por aí já notou que a literatura de Fonseca é puro cinema exploitation em páginas?). Mas, o melhor do livro fica por conta da incógnita final, afinal, nem sempre o final carrega consigo o finalmente. E se já não sabíamos se Capitu, realmente, trouxe a marca do boi para o pacato Bentinho, agora também não sabemos se Morel é ou não culpado no crime pelo qual fora condenado.
Ainda assim, alguma coisa parece-me faltar, alguma coisa que não sei exatamente o quê, mas que, se um dia me for dado saber, juro jamais reescrever!

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