domingo, 4 de julho de 2010

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS E ATRAVÉS DO ESPELHO


Verdade mesmo é que desde a “tarde dourada” daquela sexta feira – 4 de julho de 1862 –  o destino de Alice Liddell estaria perenemente aprisionado nas teias do excêntrico.


A começar pelo teor dos sentimentos que a então menina, de apenas sete anos, suscitou no jovem reverendo e professor de matemática de Oxford, Charles Lutwidge Dodgson; sentimentos cuja inspiração logo o deixariam mundialmente conhecido sob o pseudônimo de Lewis Carroll, o autor das Aventuras de Alice no país das maravilhas e de sua continuação Através do espelho. Penso que já aqui não me seria possível determinar, com juízo de causa, o que se configura mais insólito: o teor fantástico das obras; a paixão de Carroll por Alice; ou a fragilidade de encadeamento entre a simples improvisação de uma história para entretenimento de crianças durante um passeio de barco, o pedido para que as histórias fossem registradas e o propósito de um adulto em satisfazer o desejo de uma criança, por quem nutre sentimentos amorosos. E como se já não fosse bastante, o mais impressionante e absurdo configura-se no resultado de tudo isso: não apenas a ruptura com uma firmada tradição que ainda insistia em vincular ensinamentos morais ao enredo das histórias infantis, mas, sobretudo, a inauguração de um gênero que determinaria toda a história das letras no último século e que, logo, seria o marco das transformações assumidas no seio da literatura fantástica (quanto a este ponto, saliento, desde já, não estar disposto a tomar aqui nenhuma das inumeráveis nomenclaturas estruturalistas – tão em voga nas cadeiras acadêmicas –  que delimitam e distinguem o estranho, o fantástico, o maravilhoso e suas oriundas combinações; quando posiciono Carroll como um marco na transformação da literatura fantástica, desejo apenas expressar que a incorporação de elementos nonsense contribui decisivamente para a modificação do que vinha sendo praticado – por exemplo, por Poe – e já anuncia o que seria largamente explorado por Kafka e por nossos irmãos latinos).


 Agora, sem dúvida, nada mais esdrúxulo e paradoxal do que os entrecruzamentos suscitados pela obra. Isso porque, não é coisa lá tão comum que desenhos animados, filmes e toda uma gama de aparatos do universo infantil ancorem-se em um livro inspirado por sentimentos pedófilos (faço aqui oposição aos defensores de Carroll, sobretudo por desconhecer alcunha – que não a de pedófilo – para qualificar um sujeito que inventava jogos, carregava toda espécie de brinquedos e atrativos para atrair a atenção de criancinhas, das quais, com o consentimento dos pais, fazia fotografias de corpo nu).


Evidentemente, uma boa resposta, que poria fim a este suposto paradoxo, poderia se fundamentar na evocação de uma separação entre o autor e sua obra. Procedimento, devo confessar, totalmente legítimo. Mas que, nem por isso, elimina todos os paradoxos que ainda se associam à mesma.


Isto porque, uma rápida volta pelas livrarias poderia aflorar o não menos estranho posicionamento dos livros de Carroll nas prateleiras destinadas à literatura infanto-juvenil. Ora, ainda aqui me pergunto: embora destinadas para crianças, em que medida as mesmas ainda poderiam ser leitoras dos livros de Alice? Neste caso, se a negativa de inteligibilidade de uma obra a seu público já soa paradoxal, o contrário ecoa muito mais, principalmente se contrapormos, àqueles olhares pueris, outros tantos de matemáticos, lógicos, enxadristas, filósofos e intelectuais de todos os ramos que ainda se embebedam com as complexidades da leitura da obra. 


Talvez, verdade mesmo é que no mundo de Alice e Carroll tudo venha a ser possível. E como existe a chance de que o mundo deles seja também este daqui: nada mais normal do que ir ao cinema assistir à continuação da história de Alice; nada mais normal do que passar pela livraria e encontrar os livros de Carroll – juntamente com todo um ramo de literatura de vampiros e lobisomens – nos estandes dos “mais vendidos”; e, por fim, nada mais normal do que acreditar que a literatura fantástica está na moda.


           

(depois de tudo, creio que o menos nonsense foi descobrir que o pai de Alice – Henry George Liddell – não é ninguém menos do que um dos autores do famoso dicionário de grego-inglês Liddell-Scott).

5 comentários:

  1. Essa última informação eu não tinha conhecimento... que figura esse povo europeu!? Cara, fico pensando daqui uns 100 anos, como seremos lembrados enquanto geração... engraçado essas coisas efêmeras (rs)

    Muito bom seu texto borbola e a Alice devia gostar de coelhos... o tempo passa e o coelho corre!

    Grande Abraço Malandrão

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  2. Pois então, espero que ao menos valha a pena sermos lembrandos (principalmente enquanto geração, tsss).

    Só uma coisa, estou louco para saber: quem é você?


    Não deve ser o Pan, pois não está me xingando. Talvez seja o Carlo... mas, pelo "malandrão" e a remissão ao coelho, suspeito que seja o próprio.

    Mistério....

    Abraços

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  3. Não fui eu que escrevi o comentário anterior... Será que foi o Cuei?

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  4. Quem foi que "escrevi!" isto?

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  5. Já descobri, foi o Pã. Ele estava disfarçando, escrevendo sem me xingar, mas já foi descoberto.

    abraços

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