Aproveitando que recentemente tocamos no assunto das obras e seus títulos, tomo a deixa para abordar mais um Julio Cortázar. No presente caso, contudo, menos do que a sugestividade do título – Todos os fogos o fogo –, o que mais me coça é a incógnita dos móbeis que, porventura, coagiram o autor na escolha do mesmo. Inquieta-me saber não saber de nenhum indício que escolha, mire, aponte e atire para este título no universo dos outros sete que com ele se reencontram no livro. Não que o conto homônimo peque nas qualidades que ordinariamente escorrem dos dedos do autor. Mesmo uma leitura pouco atenta – daquelas que se dividem com as pernas de dorso comestível assentadas na poltrona ao lado – não deixaria de escapar as magnanimidades de nosso irmão portenho:
“Alô”, diz Roland Renoir, escolhendo um cigarro como se fosse a continuação ineludível do gesto de apanhar o fone. Na linha, há um estalo de comunicações misturadas, alguém que dita cifras, de repente um silêncio ainda mais escuro nessa escuridão que o telefone derrama no olho do ouvido.
(...) Antes de discar o número de Roland, a mão de Jeanne andou pelas páginas de uma revista de modas, por um vidro de comprimidos calmantes, pelo dorso do gato enroscado no sofá.
(...) “Não mintas”, diz Jeanne, e o gato lhe foge da mão, olha-a ofendido.
(...) Antes de discar o número de Roland, a mão de Jeanne andou pelas páginas de uma revista de modas, por um vidro de comprimidos calmantes, pelo dorso do gato enroscado no sofá.
(...) “Não mintas”, diz Jeanne, e o gato lhe foge da mão, olha-a ofendido.
Todavia, acredito que mesmo a mais atenta das leituras – que para além do beliscar dos dedos escutasse mesmo o miar do gato a ronronar pelas entrelinhas – não conseguiria se convencer da distinção conferida a Todos os fogos o fogo em um espaço que comporta obras máximas como A auto-estrada do sul e O outro céu.
Fosse o caso do conto figurar algum elemento temático, que envolvesse em unidade a obra, dar-me-ia por satisfeito. Mas, ainda aqui, não parece ser o caso.
Talvez, o melhor mesmo fosse confessar o insólito da escolha como elemento que arde na obra e se apresenta dissolvido, enfumaçado ao entendimento. Algo que provocasse mais contornos nas queimaduras da imaginação do que a simples constatação da indiferença, que, em seu olhar apático, aponta o dedo para o texto acabado, como se coubesse a ele, e somente a ele, expressar o inominável.



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