terça-feira, 29 de junho de 2010

CARTOLA E O SIMULACRO (mais uma colaboração do Pancinha)









Cartola e o Simulacro
autor: Pancinha




Existem certas fotografias que ficam impregnadas em nossa memória e alimentam a nossa imaginação. É curioso imaginar o motivo de Einstein ao expor a sua língua; ou, ainda, divagar sobre o olhar de Che Guevara em sua célebre foto. Mas é a imagem de um brasileiro que me incomoda: afinal, por que o nariz do Cartola tinha aquela tonalidade? Por que não temos imagem do cartola jovem? Será que ele era cego, como o Ray Charles, já que sempre usava um Ray ban? Quem é esse Cartola? 
Angenor de Oliveira foi apelidado de Cartola quando trabalhava na construção civil; ainda jovem, vaidoso e inspirado, usava um chapéu coco para proteger seus cabelos do cimento e do cal. Entre a construção civil e a vaidade brotavam composições maravilhosas, de um requinte incomum. Um pobre cidadão desavisado falaria que um pedreiro jamais poderia escrever tais versos e tais melodias... como Divina Dama, por exemplo, que data de 1933: “Tudo acabado e o baile encerrado, atordoado fiquei. Eu dancei com você divina dama, com meu coração queimando em chama”. Certa vez ouvi que o requinte de Cartola vinha de Bach, pois quando criança sua mãe o levava a uma igreja onde os quartetos do compositor barroco eram executados. De onde veio o seu refinamento será sempre uma pergunta solta; o que devemos é respirar esse aroma de samba, canção e poesia que ainda está boiando no ar.
Como todo indivíduo nascido e criado no morro, Cartola teve uma existência conturbada, com dificuldades financeiras e pessoais; em um momento memorável de sua vida ele foi redescoberto por Stanislaw Ponte Preta, trabalhando num lava-jato, depois da morte de sua primeira mulher e de ter se reabilitado de uma meningite. Por essas épocas conheceu e uniu-se a Dona Zica, que o ajudou abrir um restaurante musical, um bar no morro, o Zicartola; que em pouco tempo metamorfoseou-se em um templo erguido em homenagem ao samba e à cultura popular em geral. O Zicartola era freqüentado pela classe média jovem (que subia o morro da mangueira para ter contato com o samba), diversos sambistas e compositores, como Paulinho da Viola, e principalmente a comunidade do morro relacionada à Estação Primeira de Mangueira, escola de samba que Cartola foi diretor por um bom tempo e um de seus fundadores. Apesar da fama, o Zicartola não durou muito tempo. Na verdade, foi por conta da fama do bar que Cartola e Zica decidiram abandonar a vida de empresários. Cartola reclamava do “entra-e-sai” de pessoas em sua casa, das responsabilidades financeiras, etc e tal... mas, a reclamação principal era a de atrapalhar no seu processo de composição. Atrapalhou um pouco o Cartola e ajudou muito a música brasileira; foi dentro do Zicartola que começaram parcerias inusitadas, como a de Zé Kéti e Carlos Lyra em As Moças do meu tempo. Citado de forma genial em Escurinha, Cartola eterniza indiretamente esse seu romance com o estabelecimento:“Escurinha tu tem que ser minha de qualquer maneira eu te dou meu barraco te dou meu boteco que tenho no morro de Mangueira”.
A vida e a obra do Cartola se misturam em um emaranhado de formas, tonalidades e melodias que ultrapassam aquela simples fotografia antiga. Isso porque cada canção é um universo à parte e cada fato de sua vida assume uma proporção cênica. A temática que permeia o Cartola é tão múltipla que podemos encontrar sambas que tratam da morte do poeta ou sambas exaltações a escolas de sambas. Porém, os seus “carros-chefes” – tradição evidente do sambista boêmio – buscam enaltecer a figura feminina, mostrando o quão forte é o sentimento de perdê-la, como nas famosas As rosas não falam ou O mundo é um moinho e também na referência à Maria mãe de Jesus, que, como bom católico que era, pedia pela sua intervenção. Em Grande Deus ele suplica: “Julguei senhor daquele sonho, eu jamais despertaria, se errei, perdoai-me pelo amor de Maria.”. E ainda mais, personifica a mulher como a tentação eminente: “Oh! Minha romântica senhora Tentação, não deixes que eu venha a sucumbir, neste vendaval de paixão”.
    Passa por ele também a descrição da vida do trabalhador braçal, daquele que vende sua vida inteira para edificar coisas que não serão suas; como sentia isso na pele com freqüência deixou relatado em Samba do Operário: “Se o operário soubesse reconhecer o valor que tem seu dia, por certo que valeria duas vezes mais o seu salário, mas como não quer reconhecer é ele escravo sem ser de qualquer usurário”. Lembremos também do popular lundu, Ensaboa Mulata.
Para quem ficou curioso sobre esse ícone da MPB, outrora foi lançado pela globo filmes o documentário Cartola, Música para os olhos (2007). Contamos também com vários relançamentos de sua obra em CD, como o ilustre Verde que te quero rosa (1977) relançado em 2006. Para começar, esses dois títulos são perfeitos, depois de encontrá-los, os outros ficarão fáceis.
O primeiro disco solo de Cartola foi lançado em 1974, e deve ser por isso – aliado à condição precária de sua juventude – que não encontramos muitas fotos de sua mocidade, pois, nascido em 1908, no ano de lançamento do álbum contava 66 anos de vida.   
Se sorrindo é como pretendemos levar a vida, vamos sorrir já que o sol nascerá; aprendendo a transformar dificuldade em flor com o Angenor, que, aliás, nunca foi cego, caminhamos no ritmo de um samba canção.
Em relação ao nariz peculiar do autor, encontramos muitas especulações, mas a versão oficial é que o nariz dele deformara-se em função de uma rosácea, rinofima * é seu nome científico. Passou por uma cirurgia plástica, em 64. Dizem que cartola saiu da mesa cirúrgica perguntando se poderia fumar; o médico não o proibiu, pediu-lhe apenas um retorno em quinze dias e que não bebesse. O médico encontrou o sambista anos mais tarde, casualmente, caminhando pela rua...





*Estágio muito avançado da acne rosácea localizada no nariz, que se torna muito espesso, coberto por protuberâncias deformantes violáceas, salpicadas por pústulas de acne, cicatrizes e dilatações capilares. Nariz Bulboso é seu nome popular; por muito tempo essa doença foi relacionada ao consumo excessivo de álcool, porém essa teoria é falsa. A rinofima ocorre tanto em pessoas abstêmias quanto naquelas que consomem grandes quantidades de álcool.  
autor: Pancinha


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